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	<title>Marta Savi &#8211; Não Repete</title>
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	<description>Blogueira de Curitiba  &#124;  Moda criativa e vida real.</description>
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	<title>Marta Savi &#8211; Não Repete</title>
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		<title>DESAFIO DE ESTILO, DIÁRIO DE BORDO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marta Savi]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 19 Apr 2018 19:23:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[• ansiosa •]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Tô aqui tentando me lembrar de sentimentos diferentes de pânico total e absoluto quando estive envolvida em precisar escolher a roupa que ia vestir no dia seguinte. E é tudo mato lá. Desde que me entendo por gente, o ato vestir só teve duas marchas...</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Tô aqui tentando me lembrar de sentimentos diferentes de <em>pânico total e absoluto</em> quando estive envolvida em precisar escolher a roupa que ia vestir no dia seguinte. E é tudo mato lá.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Desde que me entendo por gente, o <em>ato vestir</em> só teve duas marchas pra mim: <em>automático </em>ou <em>traumático</em>.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Eu – essa pessoa toda trabalhada na ansiedade generalizada, nos complexos de pertencimento e no <em>preconceitinho</em> – sempre encarei meu próprio armário com muita desconfiança.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Não.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><strong>Sempre encarei meu próprio armário como se ele não fosse realmente <em>meu</em>.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Então mais do que um desafio de estilo, o Desafio de Estilo da Guid, <em>pra mim</em>, foi um desafio de <em>reconhecimento</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">E eu sabia disso antes mesmo de saber quais eram as tarefas. <strong>Sabia que – no meu contexto – escolher as roupas de acordo com uma diretriz externa seria um trabalho mais complexo do que <em>só escolher as roupas de acordo com uma diretriz externa</em>.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Ansiosa pela terça – <span style="text-decoration: underline;"><em>saia de saia</em></span> – e pela quinta – <em><span style="text-decoration: underline;">use </span><u><em>e</em>stampa</u></em> – já no domingo, optei por um primeiro dia absolutamente dentro da minha zona de conforto. Preto, porque isso eu sabia que tinha. Com esse dia eu não iria ter problema nenhum. Não ia nem precisar pensar muito, mesmo que estivesse pensando.</p>
<p style="text-align: justify;">É assim – desse jeito insano – que a ansiedade de uma pessoa que teme o próprio guarda-roupas opera. Só que, <em>veja bem meu bem</em>, no meio da segunda-feira eu já tava arrependida. Poxa. <strong>Chama <em>desafio</em>, do grego “situação ou grande problema a ser vencido ou superado”, né?</strong> Aí decidi que pensaria <em>de verdade</em> nos dias que viriam.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;"><em>Pra que, né, pra que</em>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Eu não tenho nenhuma única saia no meu armário. Nada. Zero. Cientes disso, as pessoas que estavam acompanhando a minha pequena luta diária estavam – é claro – <em>ansiosas</em> pela terça-feira.</p>
<p style="text-align: justify;">Recorri ao guarda-roupa alheio – da minha irmã – essa única vez. Mas, apesar das diversas crises histéricas que tive naquela manhã, consegui montar um <em>luke</em> de saia que me deixou <em>quase</em> à vontade. Camiseta, mochila, um tênis – ousado, claro, mas ainda um tênis. E saia.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu não sei operar com saia na minha vida. Não sei me comportar, não sei andar, não sei sentar, não sei fazer absolutamente nada de saia – e mesmo assim resisti bravamente o dia todo.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Esse dia foi <em>loco</em>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" class="alignnone size-full wp-image-4173" src="http://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2018/04/looks-diferentes-desafio.jpg" alt="looks-diferentes-desafio" width="1200" height="680" srcset="https://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2018/04/looks-diferentes-desafio.jpg 1200w, https://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2018/04/looks-diferentes-desafio-300x170.jpg 300w, https://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2018/04/looks-diferentes-desafio-768x435.jpg 768w, https://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2018/04/looks-diferentes-desafio-1024x580.jpg 1024w" sizes="(max-width: 1200px) 100vw, 1200px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Eu não sei se já contei pra vocês, mas eu odeio quartas-feiras.</strong> Real mesmo. Há toda uma teoria da qual irei poupá-los, mas <em>odeio</em> quartas-feiras. E, por sua vez, as quartas-feiras obviamente me odeiam também. Esse, por dedução lógica diante disso que acabei de dizer, foi o dia mais difícil.</p>
<p style="text-align: justify;">Tenho um monte de roupas coloridas. Então, lá no domingo, quando antecipei todos os potenciais problemas da semana inteira como uma pessoa ansiosa que se preze faria, achei que o dia de combinar cores seria quase tão fácil quanto o dia de sair de tênis. Mas, quando me deparei com o circulo das cores e a aparente lógica de funcionamento de suas combinações, eu dei uma <em>bugada</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Tenho um monte de roupas coloridas. <strong>Mas <em>nunca tinha pensado nelas fazendo sentido entre si</em>.</strong> Geralmente uso só uma peça colorida, misturada com os habituais jeans preto/azul escuro. Então precisei queimar uns fusíveis na quarta cedo pra encontrar uma combinação possível naquele mundo de cores que, até então, <em>nunca tinham conversado</em>. Suei. Mas acho que deu certo.</p>
<p style="text-align: justify;">Na quinta, eu já estava um pouco mais confortável com meu próprio armário. Parecia que, depois de três dias de trocas de olhares intensos entre a gente, eu estava quase reconhecendo aquelas roupas ali como minhas mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>E eu descobri, no meu guarda-roupas, umas <em>estampas</em>.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">De modo geral, elas estão em camisetas temáticas, mas como eu já tinha embarcado <em>de verdade</em> no desafio, optei por não voltar pra zona de conforto da qual eu tinha me arrependido no dia um. Escolhi uma calça que – na vida real – nunca tinha visto a luz do dia. Eu gosto da peça, mas sei que a maioria das pessoas a encaixa na categoria <em>pijama</em>, então nunca tinha usado essa calça <em>de verdade</em>. E ainda combinei com amarelo. Nem gosto muito de amarelo.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;"><em>Ousada, ela</em>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Eu tava ansiosa de verdade pela sexta-feira. Desde domingo.<strong> Eu amo tênis.</strong> E se tem uma coisa que tenho <em>de verdade</em>, essa coisa é tênis. É a parte do meu armário que é mais minha, que mais é capaz de traduzir um pouco da minha personalidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando eu era mais nova, julgava Mari, minha irmã dona da saia, porque ela tinha um monte de sapatos, sandálias, sapatilhas, botas. Quem diria. Hoje eu tenho um monte de tênis e o mesmo número de pés – dois – que Mari tem, mesmo tendo um monte de sapatos, sandálias, sapatilhas, botas. (Minha mãe sempre disse que a pedra que a gente joga mais longe é a que, no fim das contas, a gente vai buscar)</p>
<p style="text-align: justify;">Mas no domingo, quando pensei na sexta, pensei que seria o dia de <em>voltar ao normal</em>. <strong>Qualquer roupa sem pensar, um tênis escolhido a dedo.</strong> Só que na sexta, eu já não era mais a mesma Marta de domingo. Pensei muito pra escolher o tênis, mas também pensei muito pra escolher a roupa.</p>
<p style="text-align: justify;">E optei por colocar um pouco de todos os dias – menos de terça, por motivos de <em>não tenho saia</em> – no último <em>luke</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele foi monocromático. Teve estampa de herói. Teve combinação de cores. Teve uma meia comprida com bermuda. E um tênis meio que ornando lá.</p>
<p style="text-align: justify;">Não teve preto. Não teve cinza.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Não teve piloto automático.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Gostei tanto desse luke que tô até repetindo ele hoje.</p>
<p style="text-align: justify;">É claro que esse desafio não resolveu todos os meus problemas com meu próprio armário. Pra mim, não é possível chegar num <a href="http://naorepete.com.br/frida-e-um-simbolo-um-nao-varios/">nível Frida</a> de construção de personalidade através das roupas. Também não sou uma pessoa transformada em absoluto depois de cinco dias pensando sobre as roupas que vou vestir <em>antes</em>, mas alguma coisa começou a mudar aqui.</p>
<p style="text-align: justify;">O desafio, do grego “ato de incitar alguém para que faça algo, geralmente além de suas possibilidades”, tem o potencial de ecoar nesse armário.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse armário que aparentemente é meu mesmo, não tá só fingindo não.</p>
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		<title>SOBRE MULHERES SEM SUPER PODERES</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marta Savi]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 08 Mar 2018 10:54:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[• ansiosa •]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Duas semanas e uns textões depois, eu ainda tô enroscada em Pantera Negra. É que várias coisas mexeram comigo nessa história – e cada vez que penso sobre ela, quero falar de algo diferente. Guid falou sobre como o figurino, tremendamente eficaz em contar a...</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Duas semanas e uns textões depois, <strong>eu ainda tô enroscada em Pantera Negra.</strong> É que várias coisas mexeram comigo nessa história – e cada vez que penso sobre ela, quero falar de algo diferente.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><a href="http://naorepete.com.br/como-pantera-negra-inspira/">Guid falou sobre como o figurino</a>, tremendamente eficaz em contar a história com roupas e acessórios que também funcionam como personagens, lhe inspirou. E eu já falei sobre <a href="https://ansiosa.blog/2018/02/23/vida-longa-ao-rei/">o que mais me impressiona nessa conversa toda</a>: seu </span><i><span style="font-weight: 400;">alcance</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas ainda tem muito a ser dito.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mais do que um filme de herói, <strong>Pantera Negra é um filme de mulheres incríveis.</strong> Nenhuma delas tem poderes, mas a verdade é que elas não precisam nem da força nem da agilidade dos felinos. Elas são fundamentais por outros motivos. Por motivos maiores e mais representativos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entusiasta de histórias de herói e feminista, sempre tive um pouco de dificuldade de me espelhar em heroínas, algo que nunca deixou de me incomodar, ainda que jamais tenha me impedido de ser fã do gênero.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Isso tudo mudou com Pantera Negra.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nakia (Lupita Nyong&#8217;o), Okoye (Danai Gurira), Shuri (Letitia Wright) e Ramonda (Angela Bassett) acabam carregando os grandes conflitos da história, defendendo suas posições sem nunca menosprezar o ponto que combatem.<strong> E elas se respeitam, mesmo quando divergem.</strong></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">São fortes e recebem, em troca, o respeito adulto dos demais personagens. Mais do que componentes da guarda, do serviço secreto ou do departamento de tecnologia do reino, elas são conselheiras do novo Rei, <strong>que as escuta sem interromper ou repetir o que acabou de ouvir</strong> (</span><i><span style="font-weight: 400;">que sonho!</span></i><span style="font-weight: 400;">).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E suas intérpretes – conscientes do papel que representam – são ainda mais incríveis ao defender suas personagens. Danai Gurira diz que o fato de Wakanda ter crescido como país não colonizado permitiu que todos os seus cidadãos pudessem atingir seu potencial, sem os papéis de gênero que nos são impostos por aí.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Lupita Nyong&#8217;o é ainda mais incrível ao dizer que ver homens e mulheres vivendo seus poderes sem diminuir uns aos outros é um sopro de ar fresco. Ela ainda emenda: </span><strong><i>para mim foi um reflexo de que o sexismo é aprendido. Ver uma sociedade onde esse não é o ponto focal, onde o gênero não é o tecido com o qual a sociedade é construída e as delimitações do sexo não são opressivas, isso é muito legal. E é possível.</i></strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Que mulheres para se espelhar, num mundo de heróis, tão carente de personagens femininos que fujam do padrão donzela em perigo ou mesmo da super-heroína unilateral (tenho lá meus problemas com a <a href="http://naorepete.com.br/o-sonho-de-ser-heroina-mulher-maravilha/">Mulher Maravilha,</a> embora entenda sua importância nesse cenário).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Que personagens maravilhosas. Que atrizes sensacionais. Que mulheres incríveis.</span></p>
<p><strong>Que jeito de começar esse mês de março.</strong></p>
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		<title>VIDINHA DE BALADA</title>
		<link>https://naorepete.com.br/vidinha-de-balada/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Marta Savi]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 Feb 2018 14:14:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[• ansiosa •]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Vai namorar comigo, sim” Tô aqui, com o pé atrás de escrever esse texto. Mas tô também achando que ele precisa ir pro mundo. Então vou começar com uma história sobre outra coisa. Quando assisti Passageiros (Passengers, 2016), sai do cinema com a sensação de...</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<blockquote>
<p style="text-align: center;"><i><span style="font-weight: 400;">“Vai namorar comigo, sim”</span></i></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Tô aqui, com o pé atrás de escrever esse texto. Mas tô também achando que ele precisa ir pro mundo.</p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: 400;">Então vou começar com uma história sobre </span><i><span style="font-weight: 400;">outra</span></i><span style="font-weight: 400;"> coisa.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: 400;">Quando assisti Passageiros (</span><i><span style="font-weight: 400;">Passengers</span></i><span style="font-weight: 400;">, 2016), sai do cinema com a sensação de ter visto um bom filme de romance, ficção científica e aventura. Logo depois, terminei a leitura da <a href="http://cinemaemcena.cartacapital.com.br/critica/filme/8343/passageiros">crítica do filme feita pelo Pablo Villaça, do portal Cinema em Cena</a>, e minhas reações foram, na sequência: concordar com absolutamente tudo que Pablo escreveu, morrer de vergonha por ter gostado daquele filme – que não era nem de romance, nem de ficção científica, nem de aventura – e nunca mais falar sobre isso.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: 400;">Fiel à minha última reação, e também querendo evitar qualquer </span><i><span style="font-weight: 400;">spoiler</span></i><span style="font-weight: 400;"> caso vocês não tenham visto, vou falar de </span><i><span style="font-weight: 400;">outra</span></i><span style="font-weight: 400;"> coisa.</span></p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><i><span style="font-weight: 400;">“Se reclamar, cê vai casar também”</span></i></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: 400;">Eu sei.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: 400;">Eu sei que essa letra – como </span><i><span style="font-weight: 400;">tantas</span></i><span style="font-weight: 400;"> outras – pode ser interpretada de um jeito romântico – acredito, inclusive, que foi assim que ela foi pensada, </span><i><span style="font-weight: 400;">quase</span></i><span style="font-weight: 400;"> que de um jeito inocente por quem quer que tenha escrito essa canção. Até porque esses versinhos de imposição de namoro, casamento e regime de bens são todos cantados de um jeito meio </span><i><span style="font-weight: 400;">amorzinho</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">soft</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: 400;">E essa música em especial não me incomodava tanto quanto outras, que acho bem mais ofensivas e perpetuadoras dessa cultura de meninos-não-podem-ouvir-não, mais </span><i><span style="font-weight: 400;">inescutáveis</span></i><span style="font-weight: 400;">, por assim dizer. Mas nas últimas semanas, voltei a pensar nessa letra, e pude concluir que talvez ela seja pior do que eu tinha achado que ela fosse. </span></p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Com comunhão de bens”</span></i></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: 400;">Pra mim, música é uma forma bem significativa de manifestação cultural. De modo geral, ela acaba apresentando pro mundo um modelo de pensar tão popular que estoura nas rádios e toca o tempo todo. Então, se a gente ouvir com atenção, consegue escutar, por trás de cada música chiclete de carnaval, como se pensa em determinado local.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: 400;">É claro que ritmo, repetição, carisma, voz, jabá, tudo isso também faz ou não o sucesso, mas acho que o que é dito no meio da canção tem uma parcela importante nessa fórmula.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: 400;">E quando a gente escuta tanto uma música (ou uma ideia, ou um conselho, ou uma regra, ou quando vê no cinema uma história “de romance, ficção científica e aventura”) a gente acaba por aceitar. Não é consciente.<strong> Nada disso é pensado antes de ser feito.</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: 400;">Quando eu vi Passageiros, não pensei nas implicações problemáticas daquele filme, eu só gostei da história, um cara e uma moça, passando por desventuras de ter acordado noventa anos antes do prazo, numa nave espacial da qual podem nunca mais sair.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: 400;">Todas as vezes que ouvi Vidinha de Balada até umas duas semanas atrás, o que mais me incomodava na letra era o trecho </span><i><span style="font-weight: 400;">“dar outro gosto pra essa sua boca de ressaca”</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: 400;">Somos todos frutos do nosso próprio tempo, do que o nosso tempo naturaliza pra gente. E é só quando a gente dá atenção suficiente pra algo que antes não merecia tanta atenção assim que a gente consegue ver que o natural, na verdade, é um conceito bem fechado, bem produzido, bem empacotado e bem imposto pra gente.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: 400;">No fim das contas, cinema e música – se a gente olhar pra essas coisas com um pouco mais de cuidado – <strong>são duas formas de enxergarmos como uma determinada sociedade pensa.</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: 400;">E são, também, formas de resistir, de tentar fazer com que um pensamento não seja repetido sem qualquer reflexão. De tentar desnaturalizar algo que, antes, parecia tão pronto quanto um </span><i><span style="font-weight: 400;">“tô afim de você e se não tiver cê vai ter que ficar”</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A gente não vai ter que nada, não.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">&#8212;</p>
<p style="text-align: justify;">Photo by <a href="https://unsplash.com/photos/zdSoe8za6Hs?utm_source=unsplash&amp;utm_medium=referral&amp;utm_content=creditCopyText">Levi Guzman</a> on <a href="https://unsplash.com/search/photos/party?utm_source=unsplash&amp;utm_medium=referral&amp;utm_content=creditCopyText">Unsplash</a></p>
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		<title>Frida é um símbolo. Um não. Vários.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marta Savi]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Jan 2018 16:57:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[• ansiosa •]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Seus autorretratos estampam bolsas, cartões, camisetas, mochilas, livros. Seus vestidos típicos, cabelos marcados, adornos e sobrancelhas unidas representam todo um discurso. Um não. Vários. Quando eu estava na faculdade de História, apresentei um seminário sobre Frida pra disciplina de América. Nosso debate era sobre como...</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Seus autorretratos estampam bolsas, cartões, camisetas, mochilas, livros. Seus vestidos típicos, cabelos marcados, adornos e sobrancelhas unidas representam todo um discurso. Um não. <em>Vários</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando eu estava na faculdade de História, apresentei um seminário sobre Frida pra disciplina de América. Nosso debate era sobre como estavam ligadas arte, identidade nacional e política na história do México do começo do século XX. Lá, há uns bons dez anos, eu não dei a devida importância praquele trabalho, mas mesmo não tendo levado o compromisso tão a sério, a história que envolve a vida de Frida ficou comigo. É uma história de sofrimento intenso.</p>
<p style="text-align: justify;">Aí, na semana passada pude visitar o Museo Frida Kahlo, em Coyoacán, na Cidade do México, e a experiência entrou direto na lista de coisas mais impressionantes que já vi. Como isso aconteceu há pouquíssimo tempo, ainda não consigo dimensionar o real impacto do museu na minha vida, mas vou tentar escrever alguma coisa sobre ele. Ou sobre um cantinho dele que eu acho que tem tudo a ver com a proposta revolucionária do Não Repete.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" class="alignnone wp-image-3778 size-large" src="http://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2018/01/G3507717-1024x768.jpg" width="1024" height="768" srcset="https://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2018/01/G3507717-1024x768.jpg 1024w, https://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2018/01/G3507717-300x225.jpg 300w, https://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2018/01/G3507717-768x576.jpg 768w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A exposição “As Aparências Enganam: os vestidos de Frida Kahlo” foi montada em uma área separada do museu, em cinco ambientes dedicados ao guarda-roupa da pintora. Os itens que compõem a mostra foram descobertos em 2004, em uma área da Casa Azul que só foi explorada mais de cinquenta anos após a morte de Frida.</p>
<p style="text-align: justify;">Logo na entrada, o texto da curadora Circe Henestrosa – sim, bem esse texto que as pessoas geralmente não param pra ler – diz que “a exposição revela a consciente eleição de Frida por vestir indumentária tradicional tehuana para estilizar sua figura e construir sua identidade a partir de sua incapacidade física, da tradição, da moda e do vestido”.</p>
<p style="text-align: justify;">E o incrível da mostra é justamente esse: apontar para os itens que compunham a imagem – <em>icônica</em> – da pintora mexicana e demonstrar que nada ali era escolhido “sem querer”. Não havia item sem reflexão na indumentária de Frida.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Tudo que ela usava, usava para dizer alguma coisa.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Tudo naquelas cinco salas é construído para <em>jogar bem na nossa cara</em> a ideia de que a arte de Frida não estava só nas suas pinturas. Que toda sua escolha de vestimenta – das próteses e corsetes que precisava usar em decorrência das limitações físicas aos vestidos que tinham por objetivo cobrir suas imperfeições sem jamais fazer com que essas limitações funcionassem como atestados de invalidez – tinha uma mensagem.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma mensagem de estou aqui, apesar de tudo isso que você está vendo. Uma mensagem de olhe para mim, me veja como pessoa e ouça o que eu estou falando. Uma mensagem bem clara: não sinta dó de mim, me escute como igual, como outro ser humano.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" class="alignnone size-full wp-image-3803" src="http://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2018/01/museo-frida-kahlo-cidade-do-mexico-1.jpeg" alt="museo-frida-kahlo-cidade-do-mexico-1" width="900" height="613" srcset="https://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2018/01/museo-frida-kahlo-cidade-do-mexico-1.jpeg 900w, https://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2018/01/museo-frida-kahlo-cidade-do-mexico-1-300x204.jpeg 300w, https://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2018/01/museo-frida-kahlo-cidade-do-mexico-1-768x523.jpeg 768w" sizes="(max-width: 900px) 100vw, 900px" /></p>
<p style="text-align: justify;">E, enquanto eu caminhava por aquele pedaço do museu, abestalhada demais por tudo que lia e via para tirar fotos – ainda bem que Renan estava com essa missão – eu não conseguia parar de pensar em duas coisas. A primeira delas, aquele seminário de América, que fiz a mais de dez anos atrás. Eu lembro bem que, enquanto estudava a vida e a obra de Frida, tudo que eu sentia era <em>pena</em>. Como aquela mulher tinha sofrido, eu pensava, consternada. E a pena que eu senti de Frida lá atrás me impediu de <em>ver</em> aquela artista. Tudo isso, no início da semana passada, ganhou outro significado.</p>
<p style="text-align: justify;">Frida sofreu. Sofreu muito. Nós sabemos um pouco sobre esse sofrimento, vimos em filmes, em livros ou só vimos em seus quadros, que demonstram o quanto a vida que a mexicana viveu foi difícil. Mas eu não consigo mais acionar meu sentimento de pena. Não. Ainda bem. Ter visitado a Casa Azul – que antes vivia no meu imaginário como um lugar só de calvários – me fez repensar tudo.</p>
<p style="text-align: justify;">Frida sofreu. Mas Frida conseguiu nos mostrar isso. Ela mostrou pra gente como era o mundo dentro da cabeça dela, como sentia, como vivia e como não vivia. E ela também mostrou pra gente como ela se enxergava, como enxergava seu país, sua cultura tão subjugada por outras. Ela transformou o sofrimento de uma vida em <em>manifesto</em>.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Manifesto pessoal, político, de identidade nacional, de posicionamento. E fez isso com tudo. Com seus quadros, com suas fotos, com suas roupas, com seus acessórios.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A segunda coisa que eu não conseguia parar de pensar na exposição dos vestidos de Frida era que nós podemos fazer a mesma coisa. Só precisamos olhar para nós – inteiros – como as telas sem pintura que podemos preencher. Com os nossos próprios manifestos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>E aí, eu pergunto: o que a gente quer mostrar pro mundo?</strong></p>
<div id="attachment_3777" style="width: 1034px" class="wp-caption alignnone"><img aria-describedby="caption-attachment-3777" loading="lazy" class="wp-image-3777 size-large" src="http://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2018/01/DSC06335_essa-1024x576.jpg" alt="Autorretrato, Detroit (1932, inconcluso)" width="1024" height="576" srcset="https://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2018/01/DSC06335_essa-1024x576.jpg 1024w, https://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2018/01/DSC06335_essa-300x169.jpg 300w, https://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2018/01/DSC06335_essa-768x432.jpg 768w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><p id="caption-attachment-3777" class="wp-caption-text">Autorretrato, Detroit (1932, inconcluso)</p></div>
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		<title>pensar sobre mim</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marta Savi]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Dec 2017 10:48:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[• ansiosa •]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Ah, mas você e seu marido tem um tamanho parecido”, me disse uma moça, sobre o lance das trocas de roupa. Bom, é. Temos. Mas não foi sempre assim. Há quase dois anos, fiz cirurgia bariátrica. A bari, como eu gosto de chamar. Foi um...</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><i><span style="font-weight: 400;">“Ah, mas você e seu marido tem um tamanho parecido”</span></i><span style="font-weight: 400;">, me disse uma moça, sobre o lance das <a href="http://naorepete.com.br/apareci-ao-vivo-na-globo-com-fatima-bernardes/">trocas de roupa</a>. Bom, é. Temos.</span></p>
<p><strong>Mas não foi sempre assim.</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Há quase dois anos, fiz cirurgia bariátrica. A </span><i><span style="font-weight: 400;">bari</span></i><span style="font-weight: 400;">, como eu gosto de chamar. Foi um processo longo de reflexão – e, como todos os meus longos processos de reflexão, tem um caminhão de textão sobre ele lá no <a href="https://ansiosa.blog/">ansiosa</a>. Eu ia dizer que esse processo terminou na opção pela cirurgia, mas não é bem isso. Porque não acho que a reflexão tenha tido </span><i><span style="font-weight: 400;">fim</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas teve começo. Na terapia. E tive um pouco de dificuldade quando comecei a fazer terapia, porque nunca conseguia chegar nos meus conflitos internos. Sempre tinha uma outra coisa, de fora, que eu achava que era mais importante debater. Demorei um pouco – reflexão lenta, né? – pra entender que as minhas questões, se não fossem pensadas por mim, não seriam por mais ninguém. Quando superei isso, pude começar a pensar as outras crises.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma das minhas muitas crises com meu peso não tinha bem a ver com o peso em si. Quando penso na minha vida antes da </span><i><span style="font-weight: 400;">bari</span></i><span style="font-weight: 400;">, não consigo me ver pensando em querer ser magra. Acho que nunca quis ser magra. Eu sempre quis – na mesma medida que não quis, se é que isso faz algum sentido – </span><i><span style="font-weight: 400;">me encaixar</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Acho que é um sentimento meio que inevitável. A gente acaba procurando um modelo de encaixe, um padrão. E vai atrás disso, pensando que, quando chegar lá, as coisas vão funcionar melhor. Que a gente vai </span><i><span style="font-weight: 400;">pertencer</span></i><span style="font-weight: 400;">. E, penso comigo, é contra esse sentimento de </span><i><span style="font-weight: 400;">precisar de legitimação externa</span></i><span style="font-weight: 400;"> que a gente deve lutar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse meu processo de reflexão – que gosto, porque tenho apego com palavras, de chamar de revolução – começou quando eu me permiti pensar sobre mim mesma. Não sobre o que eu precisava fazer, ser ou ter, mas sobre como eu encarava o mundo de verdade, o que eu preferia, quais eram as minhas prioridades.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sim, a via de acesso foi mesmo meu incômodo com meu corpo fora do padrão, que fazia com que eu me sentisse constrangida e culpada, invisível. Mas o que eu descobri é que isso tudo era só uma ponta. O incomodo era externo, mas também era interno – era meu, não era só comigo. Há uma (nem tão) sutil diferença. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A gente não precisa precisar de legitimação externa. <strong>A gente pode ser o que a gente quiser.</strong> Ninguém precisa deixar, ninguém precisa concordar, autorizar, ninguém precisa nada. O mundo não precisa permitir que a gente exista. Já estamos aqui. Já </span><i><span style="font-weight: 400;">somos</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Essa</span></i><span style="font-weight: 400;"> é a revolução.</span></p>
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		<title>apareci ao vivo, na globo, com a Fátima Bernardes</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marta Savi]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 16 Nov 2017 12:29:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[• ansiosa •]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Sim. Isso aconteceu mesmo. Foi real. Fotos e vídeos comprovam. Quando eu e Renan aceitamos o convite pra participar do programa da Fátima Bernardes pensamos que íamos falar de roupa sem gênero de uma forma mais livre (e bem mais rápida, se vocês querem mesmo...</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Sim. Isso aconteceu mesmo. Foi real. Fotos e vídeos comprovam.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Quando eu e Renan aceitamos o convite pra participar do programa da Fátima Bernardes pensamos que íamos falar de<a href="http://naorepete.com.br/roupas-agenero-que-ja-estao-seu-armario/"> roupa sem gênero</a> de uma forma mais <em>livre</em> (e bem mais rápida, se vocês querem mesmo saber, porque o negócio todo de ir lá na frente a gente só descobriu na hora mesmo).</p>
<p style="text-align: justify;">A conversa acabou indo pro lado profissional, pra todo um debate sobre como se vestir pra trabalhar. Acho eu que é bem possível que os espectadores, de modo geral, não estejam preparados pra falar de roupa sem gênero da forma como a gente propôs no <a href="http://naorepete.com.br/passei-uma-semana-usando-as-roupas-dela-o-que-eu-aprendi/">desafio</a>, né? E precisamos ir com calma. Não podemos ser, assim, tão ansiosos.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo bem. Não foi a pauta dos sonhos, mas, mesmo assim, a gente conseguiu falar um pouco sobre como pensamos.</p>
<p style="text-align: justify;">Bom. <em>Quase</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando a Fátima Bernardes me perguntou se eu conseguiria usar as roupas do Renan no meu trabalho, tudo que eu mais queria responder é que “é claro!”. Em seguida, eu queria emendar um “porque a roupa que eu uso não muda minha entrega profissional, meu trabalho não tem nada a ver com o que eu escolho vestir”.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas daí aconteceu o <em>direito</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando eu ainda tava na faculdade, um amigo me disse que um dia o direito ia me vencer. Ele usou essa frase mesmo: <em>um dia o direito vai te vencer</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">É que eu e o direito, a gente duela há anos. Às vezes ele ganha, às vezes eu ganho, mas a guerra não termina nunca. Eu amo o direito, sabe. De verdade. Mas tem umas coisas do direito que eu não consigo amar. Tipo esse negócio da roupa social. Eu não gosto. Aliás, eu <em>detesto</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">A Guid já contou aqui como se sentiu quando <a href="http://naorepete.com.br/o-que-eu-senti-usando-um-look-que-nao-era-eu/">passou um dia todo num estilo que não era o dela</a>. É mais ou menos isso que sinto com as roupas sociais. Não fico à vontade, me sinto esquisita, deslocada. Parece que tá todo mundo me olhando, igual naquele sonho em que eu fui pra escola de pijamas e pantufas.</p>
<p style="text-align: justify;">É que não sou eu. São peças de roupa que não dizem <em>nada</em> sobre mim. Bom, vá lá. Até dizem. Dizem que eu não sei escolher roupas sociais e que claramente não fico confortável nelas.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas não é só isso. Tem uma outra coisa. Elas <em>gritam</em> uma coisa que me incomoda mais que tudo. Elas gritam uma etiqueta. E eu não gosto de etiquetas. Etiquetar é limitar, dar explicação única, é <em>conformar-se</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando a minha roupa me etiqueta como advogada, ninguém mais consegue me ver como <em>pessoa</em>. Por causa de uma calça social e de uma camisa, <em>eu não sou mais eu</em>. Sou uma categoria.</p>
<p style="text-align: justify;">Não. É pior do que ser uma categoria.</p>
<p style="text-align: justify;">É ser uma <em>caricatura</em>. Pense aí em tudo que você já pensou sobre profissionais do direito. E agora imagina essas pessoas vestidas. Não vou nem me dar ao trabalho de colocar as duas imagens – do advogado e da advogada – que você visualizou aí. Você sabe, eu sei, todo mundo sabe. A gente pensou <em>igualzinho</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">E essa é uma das batalhas épicas que eu tenho com o direito. E que eu perco mais vezes do que não, porque há um <em>código de vestimenta</em>. Há uma regra não escrita, um costume, uma tradição que a gente continua repetindo. Que a gente <em>naturalizou</em> como se assim sempre tivesse sido.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas isso não é imutável. Não tá escrito na pedra.</p>
<p style="text-align: justify;">E aí, no fim das contas, mesmo que a gente não tenha conseguido emplacar nosso discurso de roupa sem gênero da maneira que tínhamos imaginado, talvez a gente tenha tido algum sucesso em levar uma outra perspectiva para além dos limites da internet.</p>
<p style="text-align: justify;">Há um mundo em que é possível sintonizar seu trabalho – qualquer que seja ele – e seu estilo de vestir – qualquer que seja ele. Sim. É um mundo que não envolve o direito. <em>Ainda</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">E é por isso que eu continuo lutando. Como uma garota.</p>
<p style="text-align: justify;">Nem que seja só mandando um recado silencioso com a camiseta que escolhi e com a calça que emprestei do meu marido pra aparecer na Globo.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" class="alignnone size-full wp-image-3355" src="http://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2017/11/23472225_10210070536868813_3027438323044983726_n.jpg" alt="23472225_10210070536868813_3027438323044983726_n" width="754" height="418" srcset="https://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2017/11/23472225_10210070536868813_3027438323044983726_n.jpg 754w, https://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2017/11/23472225_10210070536868813_3027438323044983726_n-300x166.jpg 300w" sizes="(max-width: 754px) 100vw, 754px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Cada um usa as armas que tem.</strong></p>
<h3 style="text-align: justify;">&#8212;<br />
A Guid também falou do projeto lá no Youtube:</h3>
<p><iframe loading="lazy" frameborder="0" height="315" src="https://www.youtube.com/embed/EEQUWcK8EpU" width="560"></iframe></p>
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		<title>o mundo upside down</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marta Savi]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 02 Nov 2017 23:06:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[• ansiosa •]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Esses dias, eu e Guid marcamos de tomar café da manhã. A gente tinha umas coisas pra conversar, estávamos bastante focadas falando sobre nossos assuntos de pauta quando, não mais que de repente, Guid começou a falar de mapas. E isso aqui aconteceu: Não sei...</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Esses dias, eu e Guid marcamos de tomar café da manhã.</p>
<p style="text-align: justify;">A gente tinha umas coisas pra conversar, estávamos bastante focadas falando sobre nossos assuntos de pauta quando, não mais que de repente, Guid começou a falar de <em>mapas</em>. E isso aqui aconteceu:</p>
<p><img loading="lazy" class="alignnone size-medium wp-image-3251 aligncenter" src="http://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2017/11/deep-300x300.jpeg" alt="deep" width="300" height="300" srcset="https://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2017/11/deep-300x300.jpeg 300w, https://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2017/11/deep-150x150.jpeg 150w, https://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2017/11/deep-768x768.jpeg 768w, https://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2017/11/deep-550x550.jpeg 550w, https://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2017/11/deep.jpeg 960w" sizes="(max-width: 300px) 100vw, 300px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Não sei se vocês notaram – talvez aquele texto da <a href="http://naorepete.com.br/voce-carrega-o-mundo-ou-o-mundo-carrega-voce/">tartaruga cósmica</a> possa ter dado uma dica – mas eu tenho essa <em>pequena obsessãozinha</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Mapas</em>. Sou alucinada pelas formas de representar o mundo no papel. Hoje, com um pouco mais de leitura teórica na bagagem, sei que tudo que fazemos é uma representação, um discurso, uma construção narrativa sobre alguma coisa.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas quando esse lance com mapas começou – talvez na sexta série – não era isso ainda. Era só aquele sentimento de <em>meldels isso aqui é o mundo</em> de criança mesmo. Que não passou nunca mais.</p>
<p style="text-align: justify;">Só piorou. No Ensino Médio, quando descobri o universo das projeções cartográficas, eu pirei. Eu não conhecia outras formas de colocar o mundo no papel que não fosse a clássica Projeção de Mercator – essa mesma que todo mundo conhece.</p>
<p><img loading="lazy" class="alignnone size-medium wp-image-3250 aligncenter" src="http://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2017/11/papel-de-parede-mapa-mundi-decorar-300x192.jpg" alt="papel-de-parede-mapa-mundi-decorar" width="300" height="192" srcset="https://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2017/11/papel-de-parede-mapa-mundi-decorar-300x192.jpg 300w, https://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2017/11/papel-de-parede-mapa-mundi-decorar-768x493.jpg 768w, https://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2017/11/papel-de-parede-mapa-mundi-decorar-1024x657.jpg 1024w" sizes="(max-width: 300px) 100vw, 300px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Pra mim, essa era a representação real do mundo, assim como deve ser pra maioria de vocês. Nós, o quinto maior país do planeta, aqui espremidos no cantinho inferior esquerdo, a Groelândia, uma <em>ilha</em>, lá em cima, do mesmo tamanho que a gente (ou até maior!).</p>
<p style="text-align: justify;">E tudo bem. Essa projeção – a “oficial” desde o século XVI – não tá <em>errada</em>. Não teria sido tão popular por tantos séculos se representasse os continentes de forma absolutamente distorcida. Só que ela é só isso: uma <em>projeção</em>, uma tentativa de fazer com que um mundo redondo (ao que tudo indica!) caiba numa superfície plana. Por razões óbvias, é impossível acertar completamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, criaturas de hábito que somos, a gente quase não fala sobre isso. Usa esse mapa e pronto. A gente <em>naturalizou</em> que o mundo é assim.</p>
<p><img loading="lazy" class="alignnone size-medium wp-image-3252 aligncenter" src="http://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2017/11/mapa-invertido1-300x184.jpg" alt="mapa-invertido1" width="300" height="184" srcset="https://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2017/11/mapa-invertido1-300x184.jpg 300w, https://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2017/11/mapa-invertido1-768x471.jpg 768w, https://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2017/11/mapa-invertido1.jpg 800w" sizes="(max-width: 300px) 100vw, 300px" /></p>
<p style="text-align: justify;">E é isso – mais do que qualquer outra coisa – que me encanta na proposta da Projeção de Gall-Peters. Arno Peters, o cara que desenvolveu esse outro modelo de mapa, também não fez um mapa 100% correto. Mas ele relativizou coisas que, pra nós, são <em>naturais</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Como o tamanho da Groelândia. Como as noções de <em>em cima</em> e <em>embaixo</em>. Como a própria noção de <em>centro do mundo</em>. Os mapas não possuem apenas uso prático, também são instrumentos ideológicos. A Europa no meio superior de todo mapa, um pouco mais inchada em tamanho do que deveria ser, reflete um pensamento construído ao longo de séculos de dominação cultural e ideológica de lá pra cá.</p>
<p style="text-align: justify;">Oras. Se somos mesmo um planeta redondo que gira a esmo no universo, não existe <em>em cima</em> e <em>embaixo</em>, não existe <em>centro do mundo</em>. Não existe um marco zero. O meridiano de Greenwich só divide o mundo entre ocidente e oriente e nos diz o fuso horário de acordo com a sua hora porque alguém concordou com isso.</p>
<p style="text-align: justify;">O manifesto que vem junto com o <a href="http://www.petersmap.com/">mapa de Peters</a> é incrível. Diz:</p>
<p style="text-align: justify;"><em>“A terra é redonda. O desafio de qualquer mapa-múndi é representar uma terra redonda numa superfície plana. Existem, literalmente, milhares de projeções. Cada uma delas tem certas forças e fraquezas correspondentes. Escolher entre elas é um exercício de esclarecimento de valores: você precisa decidir o que é importante para você.”</em></p>
<p style="text-align: justify;">Eu e Guid, completamente desvirtuadas de toda a pauta que tínhamos pra tratar naquele café da manhã, ficamos horas falando sobre isso.</p>
<p style="text-align: justify;">E, no fim das contas, o objetivo de toda essa conversa é só um. Fazer com que a gente pense um pouco sobre como naturalizamos as coisas só porque estão postas antes de chegarmos aqui.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Fazer com que a gente pense <em>antes</em>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Antes de falar que as coisas são assim mesmo, escritas na pedra. Antes de escolher qual mapa que nos traduz o mundo. Antes de concordar com as coisas <em>naturais</em>. Tudo pode ser desnaturalizado.</p>
<p style="text-align: justify;">Mapas. Tipos de corpo. Estilos. Roupas. Sapatos. Cortes de cabelo.</p>
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		<title>Uma ansiosa em Paris</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marta Savi]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Oct 2017 18:29:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[• ansiosa •]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Vocês devem ter percebido que parte do time Não Repete estava dando uns rolês no Velho Continente nas últimas semanas, né? Pois é. Eu não fui, mas tava na dúvida se ia ter ansiosa semana passada. É um pouco embaraçoso de admitir, mas preciso contar...</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Vocês devem ter percebido que parte do time Não Repete estava dando uns rolês no Velho Continente nas últimas semanas, né? Pois é. Eu não fui, mas tava na dúvida se ia ter ansiosa semana passada.</p>
<p style="text-align: justify;">É um pouco embaraçoso de admitir, mas preciso contar um segredo pra vocês: eu só escrevo. As imagens todas passam por uma curadoria, porque eu simplesmente <em>não tenho</em> esse chip. Então era plenamente compreensível eu estar na dúvida.<br />
(Até porque eu sempre tô)</p>
<p style="text-align: justify;">Só que sou uma pessoa cheia de planejamentos, então eu escrevi um textão, mesmo sem saber se as férias do Não Repete se aplicavam a quem tinha ficado no Brasil ou não. E contei a história que vou dividir com vocês agora.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas isso precisa ficar entre nós, ok? Não vá sair por aí espalhando, porque eu tenho uma reputação de pessoa <em>planejadora</em> a zelar.</p>
<p style="text-align: justify;">Não estava na Europa agora, mas estive há uns poucos meses. A viagem de uma vida, que foi cuidadosamente planejada na minha cabeça ansiosa, virginiana com ascendente em virgem e de pessoa mais <em>control freak</em> que eu conheço. Tudo milimetricamente calculado no Mundo das Ideias.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi lindo. Até a hora de comprar as passagens. Quando emitimos os tickets, alguma coisa aconteceu no meu cérebro. Ele <em>congelou</em>. Eu não consegui organizar um roteiro, não consegui compreender os mapas das cidades em que ia passar. Os sistemas de tarifas do metrô eram muito mais complicados do que uma aula de matemática financeira pra gente de humanas. Parecia tudo grego – e eu não ia pra Grécia. Entrei num furacão de confusão e não consegui me organizar direito.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, a par disso – até porque o meu “não consegui me organizar direito” é muito mais organizado que o de muita gente por aí, preciso reconhecer – tudo transcorreu dentro do esperado de uma viagem de férias. Altas confusões, perrengues, quilômetros andados a pé, ônibus e metrôs no sentido errado e muito empurrão tomado de quem não consegue observar a beleza da cidade em que vive simplesmente porque mora nela. Foi incrível.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas tinha outra coisa.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu tinha um plano ousado pra essa viagem. Eu iria passar só dois dias em Paris, bem no meio da viagem, mas tinha comprado da Aro uma calça que seria perfeita pra foto na Torre Eiffel. Vermelha, esvoaçante, com uma blusa preta de gola alta – meu tipo de blusa quando não tô de camiseta – ia ficar incrível. Ia ser minha foto de perfil basicamente pra todo sempre.</p>
<p style="text-align: justify;">Muito orgulhosa de mim mesma, contei pra todo mundo sobre essa foto. <em>Treinei as poses</em>, porque, travada que sou, não sei reagir direito a uma câmera. Arrumei as malas. A calça esvoaçante vermelha. A blusa preta de gola alta. Tudo cuidadosamente dobrado na mala. Ia ser incrível. Já conseguia ver.</p>
<p style="text-align: justify;">No fim da primeira semana, fomos arrumar a mochila pra ir pra Paris. Peguei a calça vermelha esvoaçante, a blusa preta de gola alta, ia ser incrível. Já tinha recebido a dica da Guid que aquele look funcionava com um tênis preto básico. Seria só colocar um tênis preto que ia ficar ótimo.</p>
<p style="text-align: justify;">Um tênis preto básico. Deveria ser o primeiro item na mala de qualquer pessoa. Né?</p>
<p style="text-align: justify;">Um tênis preto básico. Que eu não levei. Parece que tem alguém aqui que não sabe direito como planejar uma mala.</p>
<p style="text-align: justify;">A pessoa, ela simplesmente <em>não tem </em>esse chip. Não consegue absorver que lukes completos envolvem, também, os sapatos. E tá aqui. Escrevendo no blog de moda. Vá entender.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda bem que essa história fica entre nós, né?</p>
<p style="text-align: justify;">Pelo menos eu já sei o que botar na mala primeiro na próxima viagem.</p>
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		<title>Podemos, sim, falar de feminismo no blog de moda</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marta Savi]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 21 Sep 2017 12:35:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[• ansiosa •]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Eu sou feminista. &#8212; peita &#8211; lute como uma garota.  E hoje eu já não tenho nenhum pé atrás de me declarar feminista. Tá. Nenhum pé atrás é meio que um exagero. Esse debate já foi muito pra terapia do textão – e lá no...</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h2 style="text-align: center;">Eu sou feminista.</h2>
<p>&#8212;</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" class="alignnone size-full wp-image-3006" src="http://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2017/09/lute-como-uma-garota.jpg" alt="lute-como-uma-garota" width="1399" height="800" srcset="https://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2017/09/lute-como-uma-garota.jpg 1399w, https://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2017/09/lute-como-uma-garota-300x172.jpg 300w, https://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2017/09/lute-como-uma-garota-768x439.jpg 768w, https://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2017/09/lute-como-uma-garota-1024x586.jpg 1024w" sizes="(max-width: 1399px) 100vw, 1399px" /><br />
<a href="http://naorepete.com.br/conheca-e-customize-sua-peita/">peita &#8211; lute como uma garota. </a></p>
<p style="text-align: justify;">E hoje eu já não tenho nenhum pé atrás de me declarar feminista. Tá. <em>Nenhum pé atrás</em> é meio que um exagero. Esse debate já foi muito pra terapia do textão – e lá no ansiosa tem uma <a href="https://ansiosa.blog/category/girl-power/">caixinha inteira</a> pra arquivar o que já escrevi e ainda vou escrever sobre o tema – mas ainda não acabou. Eu acho que, na verdade, não tem fim. Então o mais honesto de minha parte é dizer que hoje, ainda com um certo frio na barriga de medo e de ansiedade, eu sou feminista.</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, tenho medo. Medo do que as pessoas vão ler quando lerem que eu sou feminista. Afinal, é possível ler uma infinidade de coisas. Que estou só falando por falar, porque agora é tendência ser feminista. Que eu estou tomando o lugar de direito de quem é feminista de verdade. Que eu estou falando de um feminismo leve porque ocupo um espaço privilegiado dentro da sociedade. Há uma infinidade de asteriscos em minha declaração feminista.</p>
<p style="text-align: justify;">E esses medos todos são construídos sob medida para que eu não diga.</p>
<p style="text-align: justify;">Para que eu me cale.</p>
<p style="text-align: justify;">Para que eu fique em silêncio. Porque vai que, né? São medos que são reflexos dos meus próprios preconceitos.<strong> A gente sempre tem medo de ser aquilo que aponta no outro.</strong> É assim, desse jeito sutil, que nossa voz vai sendo silenciada. E quando a gente vê, já não disse. Já passou, em silêncio, por aquele treinamento de RH em que todos os homens na sala deram uma risadinha cúmplice do vídeo de autoescola que ensinava uma condutora a fazer baliza sem entender que a lição era pra eles.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" class="alignnone size-full wp-image-3005" src="http://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2017/09/nao-repete-blog-curitibaba-1.jpg" alt="lute como uma garota. " width="1399" height="800" srcset="https://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2017/09/nao-repete-blog-curitibaba-1.jpg 1399w, https://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2017/09/nao-repete-blog-curitibaba-1-300x172.jpg 300w, https://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2017/09/nao-repete-blog-curitibaba-1-768x439.jpg 768w, https://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2017/09/nao-repete-blog-curitibaba-1-1024x586.jpg 1024w" sizes="(max-width: 1399px) 100vw, 1399px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Então, hoje, eu digo. Com medo mesmo, com a ansiedade colada no meu ombro feito papagaio de pirata: eu sou feminista.</p>
<p style="text-align: justify;">E escrevo num blog de moda.</p>
<p style="text-align: justify;">Porque tenho aprendido que não basta só dizer. Dizer não tem sido suficiente.</p>
<p style="text-align: justify;">A gente precisa se desconstruir todo dia. A gente precisa fazer um exercício sem fim de <em>desmonte</em>. A gente precisa prestar atenção. E a gente precisa, com urgência, desencaixotar – me custa dizer isso, sabe, porque eu amo caixinhas, mas a gente precisa.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu sei que somos ensinados assim. Separamos tudo. Das disciplinas da escola às roupas “de trabalho”. Isolamos as coisas, como se elas só pudessem ser definidas por uma única característica. Só que esse comportamento nos impede de perceber que as coisas são plurais, complexas. Que <em>nós</em> somos complexos.</p>
<p style="text-align: justify;">E que podemos, sim, falar de feminismo no blog de moda. Podemos, sim, ter discurso de empoderamento construído a partir de qual <em>brusinha</em> combina mais com seu estilo. Podemos, sim, falar de liberdade dizendo que você tem a opção de usar decoração de natal o ano inteiro na sua casa. Precisamos tirar as coisas das caixas de definição única. Precisamos, com uma certa urgência, refletir sobre as coisas sob mais de um prisma de análise.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje eu tenho consciência de que <a href="https://ansiosa.blog/2017/03/08/eu-nao-uso-sapatilha/">não uso sapatilha</a> porque não faz parte do meu estilo, mas tenho, também, consciência de que meu estilo foi construído de acordo com minha forma de encarar o mundo. Preferir jeans e camiseta de herói comprada na seção masculina é uma questão de conforto, mas também é um jeito de mostrar como penso a vida através do que pego no armário pra começar meu dia. Cortar o cabelo curtinho era um sonho de criança, mas também é um ato político.</p>
<p style="text-align: justify;">Vestir-se é político. Vestir a casa é político. <em>Existir</em> é político.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>O homem é um animal político</em>, disse Aristóteles. Oras. A mulher também é.</p>
<p style="text-align: justify;">Politizemos. Juntas.</p>
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		<title>Você carrega o mundo, ou o mundo carrega você?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marta Savi]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 07 Sep 2017 14:44:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[• ansiosa •]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Tenho uma camisa favorita. E é engraçado, porque eu não gosto nem de rosa e nem de estampa, mas minha camisa favorita é rosa com riscos quadriculados em branco e azul. Acho linda. Mas, ansiosa que sou com esse negócio de códigos sociais, eu só...</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: 400;">Tenho uma camisa favorita. E é engraçado, porque eu não gosto nem de rosa e nem de estampa, mas minha camisa favorita é rosa com riscos quadriculados em branco e azul. Acho linda. Mas, ansiosa que sou com esse negócio de códigos sociais, eu só uso minha camisa favorita pra trabalhar. Então, tenho uma camisa “de trabalho” favorita. </span></p>
<blockquote class="instagram-media" style="background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 658px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);" data-instgrm-version="7">
<div style="padding: 8px;">
<div style="background: #F8F8F8; line-height: 0; margin-top: 40px; padding: 50.0% 0; text-align: center; width: 100%;"></div>
<p style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; line-height: 17px; margin-bottom: 0; margin-top: 8px; overflow: hidden; padding: 8px 0 7px; text-align: center; text-overflow: ellipsis; white-space: nowrap;"><a style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: normal; line-height: 17px; text-decoration: none;" href="https://www.instagram.com/p/BPmmOQ_gM3Q/" target="_blank">A post shared by Marta Savi (@martasavi)</a> on <time style="font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; line-height: 17px;" datetime="2017-01-23T10:12:18+00:00">Jan 23, 2017 at 2:12am PST</time></p>
</div>
</blockquote>
<p><script src="//platform.instagram.com/en_US/embeds.js" async="" defer="defer"></script></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: 400;">E, </span><i><span style="font-weight: 400;">hoje</span></i><span style="font-weight: 400;">, digo “de trabalho” assim entre aspas porque esses dias eu aprendi que não existe de verdade esse negócio de roupa “de trabalho”. Pra mim, <a href="http://naorepete.com.br/o-que-eu-aprendi-sobre-moda-ouvindo/">roupa sem gênero</a> sempre foi uma realidade, mas roupa “de trabalho” sempre tinha sido roupa “de trabalho”. Vá entender.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: 400;">Mas, desde que ouvi &#8211; de uma forma bastante óbvia, até &#8211; que não existem roupas “de trabalho”, tô trabalhando com esse novo conhecimento. Tenho pensado sobre isso, porque, vocês sabem, reflito demoradamente sobre as coisas.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: 400;">Nessa semana, de independência, cheguei num bom paralelo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: 400;">O mundo, hoje, é redondo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: 400;">Mas isso também não é unanimidade. Tem muita gente aí que acredita que, na real, o mundo é plano e essa conversa toda de forma-de-bola não passa de enganação &#8211; há um mundo de teorias irrefutáveis sobre a Terra ser, na verdade, um disco achatado. E nem é só isso. Não estamos divididos só entre <em>#timeomundoéumabola</em> e <em>#timeterraplana</em>.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: 400;">Se você pesquisar bem (nem precisa, pode só <a href="http://listverse.com/2013/05/29/10-bizarre-theories-about-the-earth-that-people-believe/">clicar aqui</a>), vai descobrir que existe uma crença de que o planeta está apoiado nas costas de quatro elefantes que ficam equilibrados no casco de uma tartaruga gigante que vaga pelo universo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: 400;">Eu, particularmente, gosto de pensar que estamos todos sendo carregados por quatro elefantes equilibrados no casco de uma tartaruga gigante que vaga sem rumo pelo universo. Pra mim, essa teoria sempre fez todo o sentido do mundo &#8211; até porque, em muitas oportunidades, eu me sinto a própria tartaruga (quando eu era criança, a resposta que eu dava pra clássica </span><i><span style="font-weight: 400;">“o que você quer ser quando crescer?”</span></i><span style="font-weight: 400;"> era só uma: Tartaruga Ninja).</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: 400;">E acho essa imagem absolutamente </span><i><span style="font-weight: 400;">maravilhosa</span></i><span style="font-weight: 400;">:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: 400; color: #ff0000;"><img loading="lazy" class="alignnone size-full wp-image-2936" src="http://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2017/09/g86qe.jpg" alt="g86qe" width="632" height="395" srcset="https://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2017/09/g86qe.jpg 632w, https://naorepete.com.br/wp-content/uploads/2017/09/g86qe-300x188.jpg 300w" sizes="(max-width: 632px) 100vw, 632px" />&gt;</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: 400;">Essa conversa toda sobre as várias teorias sobre a Terra é só um exercício. Um pensar que, independente de qualquer confirmação da NASA, cada um pode pensar e encarar o mundo no universo como bem entender. </span><i><span style="font-weight: 400;">“Ah, mas Marta, existem evidências de que o mundo é redondo e está suspenso no universo por causa das leis universais que fazem os planetas orbitarem em torno do sol”</span></i><span style="font-weight: 400;">, você diz. Ok.</span></p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: 400;">Mas a forma como você encara o mundo no universo é </span><i><span style="font-weight: 400;">sua</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: 400;"><strong>Se você parar pra pensar, isso é bem libertador, não?</strong> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: 400;">E, considerando a teoria de que quem pode o mais pode o menos, se um assunto tão complexo quanto a forma do universo pode possuir diversas interpretações e releituras, algumas outras coisas podem se beneficiar dessa abertura toda. Tipo roupas, né? Roupas <a href="http://naorepete.com.br/passei-uma-semana-usando-as-roupas-dela-o-que-eu-aprendi/">“de menino” ou “de menina”</a>, “de trabalho” ou “de sair”. Crocs. </span><i><span style="font-weight: 400;">“Não, Marta, tudo tem limite”</span></i><span style="font-weight: 400;">, você argumenta.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: 400;">Mas aí eu te pergunto:</span><i><span style="font-weight: 400;"> Será?</span></i></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: 400;">Um bom dia da independência pra você.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: 400;">Quer você acredite que a terra é redonda, quer não. Quer você entenda que existem roupas “de trabalho”, quer não. Só você pode dizer &#8211; </span><i><span style="font-weight: 400;">de verdade</span></i><span style="font-weight: 400;"> &#8211; no que acredita. <strong>E ninguém precisa acreditar na Tartaruga Cósmica pra chegar nesse ponto de reflexão.</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;">&#8212;</p>
<h6 style="text-align: justify;">Photo by <a href="https://unsplash.com/photos/YSl18VKXRso?utm_source=unsplash&amp;utm_medium=referral&amp;utm_content=creditCopyText">Daniel Frank</a> on <a href="https://unsplash.com/?utm_source=unsplash&amp;utm_medium=referral&amp;utm_content=creditCopyText">Unsplash</a></h6>
<p>O post <a rel="nofollow" href="https://naorepete.com.br/voce-carrega-o-mundo-ou-o-mundo-carrega-voce/">Você carrega o mundo, ou o mundo carrega você?</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://naorepete.com.br">Não Repete</a>.</p>
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