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apareci ao vivo, na globo, com a Fátima Bernardes

Sim. Isso aconteceu mesmo. Foi real. Fotos e vídeos comprovam.

Quando eu e Renan aceitamos o convite pra participar do programa da Fátima Bernardes pensamos que íamos falar de roupa sem gênero de uma forma mais livre (e bem mais rápida, se vocês querem mesmo saber, porque o negócio todo de ir lá na frente a gente só descobriu na hora mesmo).

A conversa acabou indo pro lado profissional, pra todo um debate sobre como se vestir pra trabalhar. Acho eu que é bem possível que os espectadores, de modo geral, não estejam preparados pra falar de roupa sem gênero da forma como a gente propôs no desafio, né? E precisamos ir com calma. Não podemos ser, assim, tão ansiosos.

Tudo bem. Não foi a pauta dos sonhos, mas, mesmo assim, a gente conseguiu falar um pouco sobre como pensamos.

Bom. Quase.

Quando a Fátima Bernardes me perguntou se eu conseguiria usar as roupas do Renan no meu trabalho, tudo que eu mais queria responder é que “é claro!”. Em seguida, eu queria emendar um “porque a roupa que eu uso não muda minha entrega profissional, meu trabalho não tem nada a ver com o que eu escolho vestir”.

Mas daí aconteceu o direito.

Quando eu ainda tava na faculdade, um amigo me disse que um dia o direito ia me vencer. Ele usou essa frase mesmo: um dia o direito vai te vencer.

É que eu e o direito, a gente duela há anos. Às vezes ele ganha, às vezes eu ganho, mas a guerra não termina nunca. Eu amo o direito, sabe. De verdade. Mas tem umas coisas do direito que eu não consigo amar. Tipo esse negócio da roupa social. Eu não gosto. Aliás, eu detesto.

A Guid já contou aqui como se sentiu quando passou um dia todo num estilo que não era o dela. É mais ou menos isso que sinto com as roupas sociais. Não fico à vontade, me sinto esquisita, deslocada. Parece que tá todo mundo me olhando, igual naquele sonho em que eu fui pra escola de pijamas e pantufas.

É que não sou eu. São peças de roupa que não dizem nada sobre mim. Bom, vá lá. Até dizem. Dizem que eu não sei escolher roupas sociais e que claramente não fico confortável nelas.

Mas não é só isso. Tem uma outra coisa. Elas gritam uma coisa que me incomoda mais que tudo. Elas gritam uma etiqueta. E eu não gosto de etiquetas. Etiquetar é limitar, dar explicação única, é conformar-se.

Quando a minha roupa me etiqueta como advogada, ninguém mais consegue me ver como pessoa. Por causa de uma calça social e de uma camisa, eu não sou mais eu. Sou uma categoria.

Não. É pior do que ser uma categoria.

É ser uma caricatura. Pense aí em tudo que você já pensou sobre profissionais do direito. E agora imagina essas pessoas vestidas. Não vou nem me dar ao trabalho de colocar as duas imagens – do advogado e da advogada – que você visualizou aí. Você sabe, eu sei, todo mundo sabe. A gente pensou igualzinho.

E essa é uma das batalhas épicas que eu tenho com o direito. E que eu perco mais vezes do que não, porque há um código de vestimenta. Há uma regra não escrita, um costume, uma tradição que a gente continua repetindo. Que a gente naturalizou como se assim sempre tivesse sido.

Mas isso não é imutável. Não tá escrito na pedra.

E aí, no fim das contas, mesmo que a gente não tenha conseguido emplacar nosso discurso de roupa sem gênero da maneira que tínhamos imaginado, talvez a gente tenha tido algum sucesso em levar uma outra perspectiva para além dos limites da internet.

Há um mundo em que é possível sintonizar seu trabalho – qualquer que seja ele – e seu estilo de vestir – qualquer que seja ele. Sim. É um mundo que não envolve o direito. Ainda.

E é por isso que eu continuo lutando. Como uma garota.

Nem que seja só mandando um recado silencioso com a camiseta que escolhi e com a calça que emprestei do meu marido pra aparecer na Globo.

Cada um usa as armas que tem.


A Guid também falou do projeto lá no Youtube: